terça-feira, 1 de maio de 2012

Freud, os filhos, os pais e as melancolias

Hoje eu nasci pro dia bem mais tarde. Uma página foi levando a outra, madrugada a dentro, e quando percebi já passava das cinco. É... tem noites que eu preciso ler, e só. Eu fico menos suscetível à minha própria impaciência e melancolia. Sem contar que consigo encerrar livros monstruosos em poucas madrugadas! Aprendo um pouco, viajo um pouco, e me maltrato um pouco... menos. Enfim. Aí só consegui ter energia pra sair da cama já tarde a dentro, com os olhos cansados ainda, e aquela sensação de deslocamento típica de quando a gente muda muito a rotina do sono.

"Seu pai te ligou duas vezes. Deve ser importante, ligue de volta." É tão engraçado esse seu jeito plácido de dar recados, mãe... Como se ele fosse só meu pai, e não mais seu esposo. Eu sei que a distância é complicada e, sinceramente, nunca fui uma dessas crianças chatas que não entendem divórcio e acreditam que os pais tem de viver juntos pra sempre. Mas porque fazer assim? Porque usar uma aliança dourada nessa mão esquerda aí se, já há alguns anos vocês são só bons amigos com filhos em comum? (...) Mas esse é o menor dos problemas porque não é um problema meu. Desde que vocês não se machuquem abertamente, funciona pra nós, os filhos.

Liguei de volta. Sempre mais calma, educada e condescendente do que eu realmente sou, falei sobre o tempo, futebol e sobre o meu irmão, que não estava presente pra poder falar também. Depois escutei os planos dele pra julho, um pouco sobre o trabalho, a Cristina e basquete... Tudo em meio essa espécie de paciência-ansiosa que eu desenvolvi pra conversar com ele... Quando eu era novinha e o inglês veloz me confundia toda, prestar atenção era essencial, por isso esse nervosinho-atento foi virando um hábito. Desligamos com despedidas educadas e aquela velha promessa de saudades, mais ou menos vazia, corroída pelo tempo e uso (...) É, meus dias andam difíceis, talvez por isso comecei quase instantaneamente a maquinar sobre a coisa toda, ao invés de só sacudir a cabeça e tocar a bola pra frente, como eu faço normalmente.

Fiquei quase meia hora ali, em frente ao telefone, pensando em como... nós nos conhecemos tão pouco, pai. Te disse que fiquei feliz com o meu time, no final de semana, mas o senhor nunca vai saber como futebol é grande aqui nesse país, ou no meu coração. Te contei sobre as aulas de inglês que eu dou pra não passar em branco, enquanto outro estágio não vem, mas o senhor... não tem como saber a professora divertida e impaciente que eu posso ser. Nós falamos sobre o Fê, de como ele continua ridiculamente mais alto e falastrão, mas o senhor não sabe das novas paixões musicais recentes & em comum que nós temos, depois de anos brigando por tudo e qualquer coisa, ou de como nós andamos pirados com as figurinhas da Eurocopa...

Parei de reclamar do jeito frio do meu pai quando eu tinha uns 13 anos. Até mentalmente, eu parei. Desisti mesmo, aceitei. Não significa que tenha parado de me machucar... Talvez eu seja exatamente igual, exatamente. Fria e distante. Quando tímida, quase arrogante. Mas ele é o adulto, e é natural que eu o culpe por não... não me buscar, não procurar me conhecer de verdade. Embora eu não culpe de verdade, não completamente. Quando um relacionamento desses falha nessas proporções, só pode ser culpa das duas partes envolvidas (...) Não, ele nem sempre morou longe... O mais triste mesmo é que, se ele estivesse exatamente aqui, sentado no pé da cama, e me perguntasse sobre o meu dia, nosso diálogo seria tão casual e frágil como foi no telefone. É uma epifania dessas meio tristes, né? Perceber isso, as duas da tarde, sentada sozinha na sala, quando se precisa tanto de alguém. Mas a estranheza some, com o tempo. Tudo bem, dad, tudo bem se você for mais próximo da Cristy. Eu entendo. É só... uma merda lidar com essas coisas, nesses dias nublados e chuvosos aqui do hemisfério sul. É só uma grande merda não poder te falar sobre o Neymar. Ou sobre o quanto ainda... dói ter perdido o Strauss, como ainda dói ridicula, absurda e desprovidamente. De como eu ainda acordo suada e sem ar às vezes, igualzinho na infância, e preciso rezar pra deuses que eu não acredito, chorar baixinho e pra dentro, e me forçar de volta pra um sono perturbado. Ou de como a mamãe continua linda, forte, feminina e a melhor mãe do mundo - engolindo os problemas dela, e os nossos, com aquele sorriso quente. De como eu tive que trancar o alemão no último semestre, por motivos óbvios, e espero que o senhor me perdoe. Ou da faculdade, da vocação que eu ainda não sei se eu tenho... Eu tenho tanto medo de falhar, pai. Falhar pro Fê, que, marrento ou não, se espelha abertamente em mim. Falhar pra mamãe, que aposta todas as fichas dela no meu sucesso e felicidade... Eu não sei se eu consigo ser feliz, pai, ou ter sucesso. Eu não sei se eu consigo viver sem ele. Às vezes, durante semanas, já chegaram a meses antes, eu fico assim... blue, e não sei de mais nada. And that's when I'm most sorry, dad. I'm sorry for having such a... close heart. I'm sorry for not trying hard enough to build a relationship with you. A real one. I'm sorry.

2 comentários:

  1. Sei lá.
    Não é fácil, mas a gente finge que é. A gente finge que não liga pra essas coisas bobas, do tipo ter uma relação próxima. A gente finge que não sente saudade "do que a gente quase não teve e quase não lembra". Mas a gente sente. E a gente se sente culpada por não fazer absolutamente nada pra mudar isso, por motivos tão óbvios pra gente e tão difíceis de entender pros outros.
    Sei lá. Eu queria te dizer mesmo é que eu te entendo. E que se eu tivesse por perto agora, eu não te diria nada, porque eu nem sei se teria direito de falar com você sobre uma coisa tão íntima, mas eu te olharia com cara de quem entende cada linha desse texto.
    No final a gente só respira fundo e segue em frente, esperando a próxima vez que a gente vai ouvir "seu pai te ligou, perguntou de você" (coincidentemente eu ouvi isso ontem).
    Sei lá. Sei lá.

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  2. É estressante você viver assim...em famílias separadas. Estressante porque os separados quase nunca vão voltar a ter um relacionamento amistoso e você, mera vítima da situação, se vê no meio desse eterna guerra de mágoas e rancor.
    Que bom que você consegue perguntar da "Cristina". Eu não tenho essa moral.
    Ótimo texto. O mais sincero e carregado de sentimentos que li por aqui. Deixo meus parabéns.
    PS: Neymar sucks. haha

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