quarta-feira, 9 de maio de 2012

Lembranças finais - I

Quem lembra de ter 15 anos e sonhar com alguém mais alto, andrógeno e de olhos claros pra te salvar das suas angústias?
Eu lembro de ter 14 anos e ir pra uma festa de ano novo com a minha prima. No centro da cidade, com gente estranha e gente esquisita. Mas cheia desses meninos andrógenos. 
Eu lembro de, quase um mês depois, receber uma ligação curiosa no meu celular antiquado. Aí eu já tinha 15 e achava essa história toda de "namorar" uma tremenda de uma perca de tempo.
Mas em três meses, caíram todos os meus preconceitos. E, criança ou não, resolvi pertencer a alguém e aceitar alguém que pertencesse a mim. Eu lembro do show, de um pedido emocionado que envolvia bochechas vermelhas, coração acelerado e Michael, do Franz, tocando ao vivo como funo. Lembro de, primeiramente, desconfiar da minha própria sorte e passar dias incrédula com a sua altura, educação, olhos, rosto e carisma - tudo isso - pra mim? Não era possível não. Mas foi, né?
Eu lembro de, com 16, moldar uma rotina em torno do nosso amor. Lembro de ir mais vezes pra sua casa ti-longe depois do colégio, do que para minha. Lembro de passar horas e mais horas apaixonadas debaixo das suas cobertas de super-herói e, por fim, da nossa primeira vez. Lembro de ter me apaixonado pelo seu cachorro e lembro de quando, finalmente, te contei sobre os meus sonhos e noites ruins. 
Com 17, eu lembro das viagens! Ah, das milhões de fotos e do carro lindo que o seu pai finalmente te deu. Eu lembro de ligar o mínimo pros pedaços da minha vida que não envolviam você e lembro do seu cheio de sândalo e menta, encontrando minha nunca e boca. Eu lembro de chorar igual a menininha dócil e assustada que eu nunca fui, compulsivamente, durante dias, por causa da sua primeira semana na faculdade. Lembro da minha primeira tatuagem e da sua terceira. Lembro de prometer me casar com você e lembro de como, na época, você sorria mais por prazer do que por ironia.
Com 18, eu lembro do circuito de rolês e das merdas alcoólicas lindas que nós, finalmente, podíamos fazer juntos! Lembro de passar no vestibular mais interessante do país e ver a sua expressão orgulhosa e feliz, mas também preocupada e febril. Lembro de ter feito besteira e, por pura insegurança, ter quase estragado tudo em fevereiro... Mas eu também lembro de umas certas serenatas e daquela uma semana solo em Guararema. Lembro de ter conversado, só conversado, sobre intercâmbio... Lembro do seu ciúmes crônico dos colegas da USP, e da sua primeira internação por causa da úlcera. Lembro de nunca ter amado e ter sido tão amada em toda a minha vida. Lembro do... auge. Nosso auge.

[...] 


2 comentários:

  1. Já li esse texto umas dez vezes, e preciso te dizer que eu também me identifico muito com o seu jeito tão real, nostálgico e lúdico de escrever. De verdade.

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