segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sagrado


"Me faz chorar." Um antebraço se enrolou bem firme em volta de todo cabelo, assim, inteirinho, preso pela mão no extremo, mas enrolado bem firme no pulso. Ainda tava molhado do primeiro banho, cheirando a shampoo, àquele perfume gostoso dela e a calor, principalmente a calor. A outra mão tava perdida faz tempo, gentil e ritmadamente, no lugar certo. Tinham roupas no chão, tinha música no fundo e ele tava pronto para a brincadeira de limites. "Vai, me faz chorar!" A expressão dele ficou entre o fascínio, o desafio e a surpresa. Fazia tempo, é verdade, mas a coisa toda fora bem mais convencional, nas primeiras vezes. Mudou tudo, essa semana. E que bom, porque ousado é mais o negócio dele. Fechou os dedos contra a garganta projetada dela, pra assustar ou enlouquecer. "Mais forte, anda..!" Ah, aí ele uniu mais as cinturas, uniu bem, apertando os ossos até o movimento obsceno virar um só, até doer mesmo, pros dois. "Por favor... forte!" Puxou o cabelo, depois puxou mais, e uniu mais, se projetou mais, até ela abrir a boca e apertar os olhos, de dor, de tudo, de toda a dor que ela queria. Se mexeu rápido, bem rápido mesmo, até ela parar com as ordens e começar a declamar onomatopeias. Ficaram assim, nessa sintonia absurda de perfeição por um tempo. Aí ela girou, inverteu o padrão, começou a pedir com os olhos, mandar com a língua. Deixou ele ganhar denovo, ocupar mais espaço, xingar mais um pouco. Sentiu a nuca arrepiar e se sentiu como um animal, pronta pra mais, com o melhor treinador do mundo. Arranhou um quadril dele e manteve as unhas cravadas, até a cara de dor e prazer aparecerem, até ele responder com uma mordida firme no seu ombro. Cedeu a mais uma combinação fatal de movimentos, tinha sangue embaixo das unhas e sentia a respiração dele disparando contra seu pescoço, soprando sua cabeça cada vez mais pra perto das nuvens. Aí começou virar os olhos pausadamente, e se entregar pra mordaça manual que ele, rapidinho, improvisou - antes que o prédio todo escute. Mas os dois foram perdendo a noção de barulho juntos, a mordaça sumiu quando dois dedos dele viraram brinquedo na boca dela. Ela voltou a pedir, a mandar. Ele obedeceu gemendo, brutal - dominante e dominado. Mais uns poucos minutos e pronto: quase juntos; poesia. Alguém em algum lugar da cidade deve ter ouvido. Mais de um alguém. 

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