quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dramática auto-suficiência

Te ensinam a respirar, na terapia. Faz anos que nem passo perto de um consultório, mas lembro de quase todas as coisas... Agora seria bom, eu acho. Seria bom ter algo agora. Ou seria o contrário de bom, mas tenho pensando muito nisso. Parei porque tava com medo de decepcionar minha mãe. Com treze anos decidi que não queria ser a filha estranha, triste ou meio pinel, que fazia terapia e tinha tudo pra dar errado, vivia muito mais triste do que feliz e acordava em pânico, inconsolável, pelo menos uma vez por semana. Bom, mãe, nós duas já sabemos agora que todo aquele meu "potencial" à normalidade e sucesso foi fogo-de-palha. Quanto aos sonhos escuros... eu sei que pela lei não são mais problema seu, mas eles nunca deixaram de me espreitar e, quando eu menos preciso, eles voltam. "Fecha os olhos outra vez, tampa os ouvidos e tenta ouvir a sua própria voz dizendo, de dentro pra fora: tá tudo bem, tá tudo bem... você já acordou."

Mas e a respiração... como era mesmo? Eu queria lembrar dos exercícios todos! Lembrar de como puxar o ar, quando, a garganta e o tórax já estão completamente contraídos, arfando, mas só vai entrando mais desespero. Queria lembrar, agora, de como me acalmar com o oxigênio inalado, deixando ele fluir pros olhos afogados e pra bagunça que as expressões faciais se tornaram. Ou de como ser forte, e ter foco, pra inspirar bem fundo, entre pausas longas, e com calma liberar a pressão dos punhos pálidos, fechados em x com força demais. Tinha aquela posição também, aquele jeito curioso de sentar agarrando as próprias pernas, se impondo contra o estômago dolorido, ordenando física e psicologicamente que ele pare de borbulhar medo e ácido gástrico em excesso. "O corpo é gentil demais, e quando o medo e a tristeza dominam a mente, ele resolve se maltratar pra te distrair... Mas a mente é cruel: junta os dois processos e faz tudo parecer pior. Busque raciocinar."

Não era só sobre respirar direito, é claro... Embora grande parte da coisa toda tivesse haver com isso, aqueles dias, por causa das técnicas que eu tinha de desenvolver pra me acalmar depois de acordar. Mas tinha a poesia também, o lado filosófico e charmoso, a tal da doutrina de auto-ajuda. Eu era boba e criança, mas de qualquer jeito inocente, funcionava. Acho que vou querer um pouco disso também, (re)aprender a me ajudar quando, na real, não sobrou mais ninguém pra fazer isso por mim. É, eu lembro bem disso, lembro do psicólogo me trazendo chá de camomila e sentando mais perto, dizendo que não faz sentido nenhum se martirizar e viver em luto quando as pessoas que a gente ama saem da nossa vida, de um jeito ou de outro, porque no fundo é tudo uma questão de concepção, e essa questão tende a ser bem relativa: nós só devemos "precisar" de alguém quando esse alguém existe plenamente pra nós; quando não, só precisamos de nós mesmos. Não é egoísmo ou egocentrismo, mas auto-suficiência, e ela não é perfeita e na maioria das vezes é muito triste, mas quando é só o que sobra, precisa ser ideal. Acho que naquela época eu reclamava do meu pai, e, graças a psicologia ou não, eu desenvolvi essa relação exata com ele - independência emocional. (...) "Agora você só precisa fazer isso outra vez com os seus mais novos futuros-fantasmas."


2 comentários:

  1. Independência emocional. Jura que há terapeuta no mundo que consiga ensinar isso a alguém? Dá pra você me passar o telefone, então? Rs.
    Que bom que voltou a escrever, Vic.
    Você sempre manda muito! =')

    ResponderExcluir
  2. Não tenho muito a acrescentar.
    Texto top.

    ResponderExcluir