terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Great expectations

Vocês sabem, né? Vocês já sabem que eu não resisto a uma boa retrospetiva à sombra (ou à luz!) das expectativas do novo ano. Pois é, here it goes.

Dois mil e quinze foi um bonitão. Desde o primeiro dia de janeiro, até este finalzinho eminente.

Com certeza teve a ver com essa história de ser recém-formada. Ganhei um diploma e um desafio: o início da "vida adulta de fato". Eu adoro fingir que já estou completamente adaptada à ela, mas é um processo e, no meu caso, tá longe de ser concluído. E eu aprendi, esse ano, que isso não é necessariamente algo ruim. Life's learning. 

Aí, póstumas à toda essa sabedoria de boteco, começaram as sofrências reais (eu disse que o ano foi bonitão, não perfeitão). 

Realizar e realizar e realizar foi a nossa ditadura, este ano. Trabalho perfeito, aquisições que custam pequenas fortunas, viagens enormes, noitadas incríveis, coleção de amigos distintos, o melhor relacionamento do mundo, etc, etc, etc. 

Nesse caso, eu fui rebelde e me mantive confortavelmente no meu pequeno e discreto espaço. Minha maior compra foi uma TV (há!). Minha melhor viagem foi nacional. Meus melhores amigos e meu namorado continuam os mesmos. E as minhas noitadas preferidas continuam sendo humildes, regadas à bebida barata, ao lado deles.

Mas eu sou capricorniana, o significa que tenho uma melhor amiga que adora essas deixas: a bad. Passei meses me punindo por não colecionar realizações à altura das expectativas (minhas e vossas). Life's wishing.

É que, sabe... como diria Adele, a vida acontece. Em janeiro, eu até tinha tempo. E uma depressão pós-faculdade incurável. Em fevereiro, um trampo, ocupação e objetivos novos (todos assustadores). Março e Abril? Sinceramente, eu nem me lembro. Eu trabalhei, e trabalhei, e trabalhei. Maio, junho e julho? Foi mais do mesmo. Aquela inércia perigosa, aquela rotina sufocante. Agosto foi confuso, longo e perturbador. Setembro sim - esse foi um mês bacana. Outubro foi duas vezes mais agradável. Aí chegou novembro e as coisas se iluminaram de vez. Se aqueceram. Me acalmaram.

Agora só cabe verão dentro de mim. E gratidão.

Não sou religiosa, nem mesmo espiritualizada (pelo menos não ultimamente). Devoção, no meu caso, é uma coisa rara e só existe quando mesclada à lealdade. Mas hoje, nesse fim de dois mil e quinze - o bonitão - eu tô grata. Eu tô feliz pra caralho. Tô apaixonada (ainda, cada dia mais). Tô puro açúcar mesmo.

Foi um ano de nutrição & calmaria, porque tinha de ter sido. Criei novas tradições, por mais herética que essa frase pareça ser. Descobri que dividir a vida com a pessoa certa é simplesmente a maior benção alcançável. Amadureci em umas dez frentes e maneiras diferentes. E isso, dessa vez eu juro, não é só um clichê encaixado no contexto. Não é só aquela mentirinha que a gente conta todo fim de ano pra justificar as bobagens feitas. É percepção e catarse. Pode ser que seja exagerada, amplificada, enfeitada. 'cause life is beautiful.

Agora 2016, que mais me assunta do que empolga. Mas sempre é assim. As percepções otimistas & pessimistas, aqui, se invertem. And life's finding.

Bom final de quinze pra vocês. E o melhor começo possível de dezesseis.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

bitches beware

Aquele ditado popular que fala sobre reação: ele é o meu preferido.
"Coloca o dedinho na boca dela pra ver se não morde."

Tem gente que o interpreta à favor dos traiçoeiros. Mas eu, talvez um pouco idealisticamente demais, não creio em mordidas dadas sem razão.

Introduções após, apresentando o tema: sou fã número um de quem reage. Passividade tem um limite e, quando esse limite é rompido, um preço muito alto.

Em partes, é porque eu nunca gostei da ideia de ser um alvo fácil. Basta dar uma olhadinha nos posts mais pessoais daqui pra perceber. Só eu tive, durante todos os dias dos meus 23 anos, o direito de me machucar. Isso não significa que sou imune a todo resto - muito pelo contrário. Mas, quando chega a isso, eu tenho reações estrondosas.

E é claro que, mesmo como grande apreciadora e defensora delas, sei melhor do que ninguém das consequências. Ainda assim, prefiro lidar com as consequências à ficar sem reação.

E é mais claro ainda que, às vezes, o capetinha empulerado no meu ombro esquerdo exagera. E me convence a tomar atitudes precipitadas, com requintes de má fé, impaciência e arrogância.

O fato é que eu não me desculpo mais. Foi pra documentar isso que montei esse texto egocêntrico.

Bad bitches will always beware.

Ciao.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Desesperado e Divino

É como ter saudades imensas de um lugar que você nem sabe se existe. É tipo aquela hesitação sonolenta que vem antes de dormir, depois de acordar ou no meio de um sonho. Tá exatamente sobre a tênue linha que separa o fato da fantasia.

Você sabe o que é porque você já sentiu medo ao invés de excitação. E excitação no lugar do medo. Você tem certeza que conhece essa "viagem estranha" porque inspira coisas novas, todas erradas, todos os dias. E expira gratidão, conforto e carinho.

Eu sou assim. Gosto de inverter minhas percepções. Sou bem mais alternativa aos sentidos do que sou aos gostos, frases ditas, não-ditas e relações. Essas coisas, inclusive, só têm me irritado. Porque tem uma bola de gelo dançando no meu estômago todos os dias, me dizendo pra pular de alegria, ou morrer de tristeza. Viajar pra longe, ou apertar o sinto e curtir meu lugar. Colher flores, ou usar drogas.

E é assim que sempre foi. Divino, enquanto desesperado. Sutil, enquanto em constante movimento. Todos os dias da minha infância, todas as minhas piores e melhores lembranças: é dentro de mim que a melhor e mais assustadora parte da vida acontece. Na minha cabeça maluca, no meu coração possuído. No meus olhos sonolentos, nas minhas frases curtas.

Tenho crises chorosas,
Na mesma proporção de catarses incendiárias.

Sinto o pânico constante,
Na mesma medida do clímax eminente.

Sou sozinha e do mundo,
E, da mesma forma, de alguém ou de todos.

É como... ter saudades de uma pessoa que você nunca foi. Ou sempre vai ser.
Você sabe o que é. Você tem certeza que conhece o sentimento. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

“i’m sorry that there was always a storm in my mind,
even on the sunniest of days,
im sorry”

— E.S., things i wont say to him

segunda-feira, 1 de junho de 2015

nossa lista

As dezenas de apelidos constrangedores, íntimos, no diminutivo.
O beijo no carro, sexta, após o expediente.
A primeira comida gorda de todo santo final de semana.
Os dois tipo de "grudar".
O antes de dormir e o na hora de acordar.
A barba de um enroscando no cabelo do outro.
O cafuné cheio de puxões de cabelo.
As mordidas, os pézinhos, as barriginhas, as reboladas.
Os olhares a distância, que contam tudo sem dizer nada.
O andar de mãos dadas que, na verdade, é o andar de dedinhos cruzados.
O rodízio de cds pra ouvir no carro.
Os lados incertos das duas camas, que não são mais minha e sua, e sim nossas.
A cervejinha gelada, o milk shake transbordando, a Pepsi proibida e o achocolatado matinal.
Os cafés da manhã simplinhos levados à cama.
Os cafés da manhã enormes, com bolo de laranja e muita manteiga.
A gaveta de cartinhas, miniaturas e livros que não acabam.
A apresentação mutua de sagas infantis, vistas em finais de semana.
As séries que amamos, os filmes que odiamos, a conta do Netflix.
Os poucos passeios verdes, com a cachorra mais medrosa do mundo.
Os shows onde, se não chora um, chora o outro.
Os festivais e os foodtrucks.
Os amigos que dão trabalho, os que nós adotamos, os que estão sempre lá.
Os banquetes de pizza pós balada e as tortas de maçã.
O pint de Guinness e o shake de baunilha.
Os três Hobbits e o cineminha domingo à noite.
As saias muito curtas e as camisetas todas iguais.
As compras em excesso e o futebol de madrugada.
O Bolota, o Palião e as viagens de trem, dividindo o fone.
As viagens superlongas, em família, e superdoidas, com os melhores amigos.
O irmão baladeiro e o irmão boleiro.
O tio ricaço e o tio doidasso.
As vovós baixinhas e o vovô prefeito.
O drama de acordar cedo e a obsessão por banhos.
As músicas tema do primeiro beijo.
A armadura, esquecida na Lab, e a insegurança, esquecida pra sempre.
O bulldog, a viagem e o futuro.
Nós dois, nós dois, nós dois.
Os gestos, a prioridade, o respeito, a preocupação.
Nós dois, nós dois, nós dois.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

oraçãozinha dos ansiosos

Todo desapego será recíproco.
Toda falta de fé, mútua, mas não necessariamente compartilhada.
Se o mundo ou alguém partir meu coração, vou tirar disso o melhor. 
Não vou sucumbir à dor, muito menos à incerteza da dor.
Prometo me manter fiel a paz de espírito que idealizo todos os dias.
Prometo não ter mais dores de estômago com problemas que ainda não existem.
Prometo encontrar na frieza minha defesa.
Amém.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Notice your heart

“Take a shower, wash off the day. Drink a glass of water. Make the room dark. Lie down and close your eyes.
Notice the silence. Notice your heart. Still beating. Still fighting. You made it, after all. You made it, another day. And you can make it one more. 
You’re doing just fine.”

Charlotte Eriksson 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Bonfire

Duas da manhã. Noite comum, sem graça como a maioria, mais escura que qualquer outra.

Se estivesse uns 15 graus lá fora, era muito.
Mas dentro dos ossos, correndo junto ao sangue, pulsando na polpa cerebral, só havia fogo.

Será que é genética, essa ansiedade? Será que esse ódio fugaz é culpa do estilo de vida escolhido? Será que essa angustia dantesca foi causada pelos tantos vícios?

De onde vêm essas coisas? É química ou herança? É ciência ou sentimento? É sintoma ou causa?
É o maior valor ou o pior defeito?

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A gente se lembra

A gente definitivamente não sabia o que estava enfrentando. É a unica coisa que eu sei com certeza sobre a "coisa" toda.

Falar dessa forma, faz com que pareça ser uma tragédia muito maior do que foi de fato. Se bem que, sabe... foi uma tragédia proporcionalmente ruim. Por ter sido daquele jeito, naquela época, para aquelas pessoas - que hoje nós reconhecemos como versões mais instáveis e imaturas de nós, mas na época não reconhecíamos como nada.

Eu explico: ninguém de dezesseis anos deveria sofrer tanto. Ou ver pessoas próximas sofrendo tanto.

Não somos psicólogas, o diagnóstico nunca foi compartilhado, mas aqueles meses, acredito eu, foram o mais próximo que já estivemos da depressão. A dela, no sentido biológico, e a nossa, no sentido atado, metafórico, coadjuvante e espectador.

Nós seguramos os cabelos no banheiro e corremos, pelos corredores do colégio, com os bolsos cheios de papel descartável pra secar as lágrimas. Nós nos preocupamos, mais e mais, a cada ausência e nos sentimos enjoadas a cada semblante sem foco. Nós tentamos pegar nas mãos frias, nós tentamos ligar, nós tentamos sorrir e distrair.

Vendo de fora, parece que fizemos a nossa parte, sempre desesperada, muito bem.

O fato é que algumas de nós - hoje eu sei -, por não saber como lidar com a situação, escolhemos as piores formas e momentos para nos retrairmos. E fomos injustas.

Repito: dezesseis anos não é a idade pra lidar com terror e tristeza. Não teve terror, mas teve muita tristeza e, como consequência, a ameaça constante do terror.

Dezesseis anos não é a idade para lidar com nada. E hoje eu desabafo, nesse ensaio tardio, porque finalmente percebi isso, porque finalmente voltei a pensar nisso (ao invés de encaixotar num canto escuro, junto dos traumas e ideias ruins).

Não foi só um capítulo para nunca mais falarmos sobre, tá? Não foram só alguns meses confusos. Foi horrível. E nós sabemos, nós lembramos e te amamos, menina. Também estamos muito, muito felizes que hoje você esteja bem. E, guess what, já conseguímos falar sobre aquilo outra vez. E vamos superar - dessas vez de verdade - pra sempre. E sempre juntas.

If I ever marry, I’d want my vows to be something like this

I promise that I will always try to see you. That even when our bodies bend and our hands wrinkle, I will still see your true beauty.

I promise to listen, but I won’t be quiet. I want to hear your heart. I will always speak up because you matter more to me than the keeping of the peace.

I will be brave enough to be me as often as I can. For some crazy reason you fell in love with me and I want to keep it that way.

I promise to touch you. Every day.

I promise to always be there for you. I will have your back and always catch you.

I promise to support you where I can. I don’t want to solve your problems, but I do want to hold your hand while you do.

I promise to be your most diligent of students. I will go to the college of you and look forward to the graduation party.

I promise to never let you sleep unless you know that I love you. Whatever it takes, I will show you that I love you.

I promise to be honest. You will know me and have nothing to fear. For you will know my greatest fears.

I promise to take on all of you. Your fears, your dreams, your hopes and your loves. What made you so beautiful to me was the combination of all those things.

I promise to remember who you are. And to never make you anything else to me.

I promise to excite you. A rut is no place for two love royalties such as ourselves.

I promise to be in the moment. It’s all we have and it’s better with you in it.

I promise that once our time on earth is finished, even then I will still love you and if I can, will find you and hold you once more.

As a token of my love.

I give you this heart.

Until love do us part.



fonte: Elephant Journal

terça-feira, 7 de abril de 2015

No tears from the creatures of the night

Blend de sentimentos estranhos desabrocharam em um sorriso contrariado:

Quando as minhas férias vão refletir as minhas escolhas? Quando a minha casa vai ter as minhas cores favoritas? São essas mesmas perguntas que os perdidos da minha idade tem se feito também?

terça-feira, 10 de março de 2015

My Morning Phase

Não consigo parar de ouvir o mesmo CD já tem semanas. E meu foco, para produzir qualquer coisa, anda despretensioso e preguiçoso.

Semana passada esses dois fatos - somados a mais alguns, que existiram só na minha cabeça - me fizeram querer chorar quase o tempo inteiro.

Hoje não.

Sei que 70% tem a ver com o ciclo hormonal, enfim numa fase melhor do mês. Mas não é só isso.

A gente sempre tem duas escolhas.

A gente sempre pode deitar, olhar o outro dormindo e pensar no quanto tem sorte, no quanto se sente completa e feliz, deitada ali. Ou pode deixar todo o medo de perder tudo isso entrar, e chorar baixinho.

Pode odiar cada um dos dias uteis e temer que eles sejam assim, chatos e sem perspetiva, pra sempre. Ou pode fazer o melhor possível, deixar de ser pessimista e abraçar a ambição como uma grande aliada.

É claro que a primeira opção é a correta. Demorou uns vinte e três anos, mas acho que finalmente estou entendendo isso. Pode ser a mais burra, a mais convencional, a que mamãe nos ensinou a enxergar, só pra nos proteger.

Mas também não é só isso.

Segurança não é cegueira. E felicidade pode não ser, com cuidado, ignorância.

Eu sei que estou sujeita a todas as tragédias do mundo. E sei que daqui há 28 dias, vou sentir uma bola de terror sondando meu estômago e emoções de novo (os hormônios).

Mas a gente sempre tem duas escolhas.

E por mais que essa terça-feira esteja desesperadoramente monótona e longa, até agora, hoje o sol é só meu. E a chuva, se ela vier. As horas calmas da manha também. E as agitadas do fim da tarde.

Eu prometo que vou escolher melhor.


quinta-feira, 5 de março de 2015

Text for Tired Eyes

Tonight my love there is something we must try
so reach your hand through the sheets and
squeeze tight to my fingers.   Tonight my love
we will lie flat on our stomachs and press our
chests into the bed beneath us, tonight we
will pretend the box springs are microphones and we
will record, once and for all and in one triumphant take,
the symphony of our sleeping.
It will start small with only the drums of our
heartbeats echoing through the audience of these
pillows and sheets atop us.  Soon, if the night
and the stars will witness this concert, if they
stay still enough, they will hear the soft chorus
of my breath being joined by yours and the drumbeats
that started off separate, joining into one beat,
only louder, one beat, only slower.
They will listen for the sound of strings as your
legs rub against one another and the cello sobbing
as your feet make their way through the slumber
to rub up against mine.  The long notes of long sighs
and the soft cymbal crash when my lips find your lips
with eyes shut tight and the fog of exhaustion
muddling the lyrics we whisper to one another
over the music we’re making.  I can almost hear
the notes our fingertips play as they curl, one by
one by one onto the backs of each others hands.
How dare we grow familiar with the empty space
in the empty bed when there is so much melody waiting
to be made? How dare we abandon the song that is created
when wet pillows are finally dry and
the perfect pitch you make before you roll over rings
through the amphitheater of this room.
Tonight my love we will add an entire bar of silence
into the center of our movement.  We will let our
fingers rest, place these instruments at our sides
and let only the sound of our audience moving slightly
around our bodies echo around the walls.  The sheets
rustling, the feathers shifting inside the down
and our heads sinking deeper into our pillows, these
sounds will scream into the inky darkness around us.
Only when we are convinced that the silence has
resonated long enough will I let my heart drum roll
across the mattress and wrap you up inside it.
This is the symphony of our sleeping, the timbre of
longing and a calm that is only created by us and
plays every night of every week, every week of
every long and winding year. Lean your head close to mine
and listen my love, listen as we conduct each other
in pieces, small and delicate pieces while we race
towards dreams.  Listen for the music swelling when
we dream together and hear the song as we are composed
in whole.  Watch as we, horizontal and clinging, raise
our sleeping hands into the sky and begin our hands
dancing with directions to the covers and our legs
beneath them.

- Tyler Knott Gregson

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

You are my sunshine

We get old and get use to each other. 
We think alike. 
We read each others minds. 
We know what the other wants without asking. 

Sometimes we irritate each other a little bit. 
Maybe sometimes take each other for granted. 

But once in awhile, like today, I meditate on it
and realize how lucky I am to share my life with
the greatest man I ever met. 

 You still fascinate and inspire me. 
You influence me for the better.
You’re the object of my desire,
the #1 earthly reason for my existence. 

I love you very much. 

Carta escrita pelo Johnny Cash, em 1994, pra June.

Te amo, amor.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O manifesto da tristeza da gente

É essa nuvem, essa maldita nuvem de vapor quente, que de tempos em tempos cozinha a metade boa da gente, que precisamos aprender a respeitar.

A metade que fica são só coisas chatas, dançando em círculos, pisando nas certezas e nas good vibes. Mas nós, os romancistas, temos de entender e dar vazão pra tudo isso.

Viver de olhos fechados, espreitando o lado de dentro da nossa cabeça, é um amor... e um caos.

Mas nós não implodimos. Muito provavelmente porque crescemos recebendo atenção demais e valorizamos um chororô dos bons. Isso é fato. Gostamos mais dele do que do famoso discurso de superação (não somos muito fãs desse finalzinho desesperado, pra falar a verdade. Não nos convém ou convencem, porque somos lúcido demais pra isso).

O bright side é que a gente sabe o quanto é ou ainda será feliz. E sabe melhor ainda desfrutar de tudo isso. Ficar de cara-feia uns tempos pode ser, quem sabe, a manobra genial dessa nossa bela e sofrível equação.

Não recomendamos. E nem abrimos mão. Porque faz parte do nosso fluxo e só prova que temos os corações mais gigantes do mundo. E daí que reclamar e remoer são nossos pecados preferidos?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Stranger

O cabelo é enorme. E cheiroso.

De de perto, o aroma é floral e doce, mas quando se agita, de hortelã e folhas secas. As pontas são bem claras e onduladas e a raiz é, pode-se dizer, castanha acinzentada. É um cabelo cheio, sabe? Ridiculamente longo e volumoso, mas de um jeito muito especial. Quase tímido.

Todos os ossos são muito bem pronunciados. É até magra demais, segundo as convenções. Os quadris estão mais para duros do que arrendondados, mas tem um movimento gracioso, é preciso admitir. Como se o tempo todo ela estivesse na ponta dos pés, feito uma bailarina. A silhueta é bonita, no geral, principalmente porque é uma mulher alta. A a postura é tão ávida que, por vezes, ela até parece assustada, pronta pra sair correndo.

O nariz é minúsculo e sardento, o que é estranho, porque o restante da pele é padronizada e bem... bronzeada. As extremidades pontudas dos ombros estão, inclusive, descascadas do sol. Parece que ela passou a vida inteira no litoral, embora venha do campo. Tem umas mãos finas de pianista, cheias de anéis minúsculos e descascados. As unhas não são enormes, nem tem esmalte algum, mas estão bem polidas.

A boca é normal. Mas não é muito justo descrever assim. No rosto dela, fica perfeita, como que desenhada ali mesmo. Só que é difícil explicar esse efeito, pois não é muito grande, ou larga, ou rígida, ou grossa. É normal e perfeita pra ela. 

Os olhos são escuros e estão sempre baixos, sonolentos, sorrindo de desconfiança. Ou de interesse, pode ser. São bem misteriosos e por isso tão legais. Os cílios enormes deixam ela com aquela expressão de rapina. Estão recheados de máscara escura, quase exageradamente,embora tenham dado um contraste interessante com os cabelos claros.

Usa um shorts jeans daqueles com a cintura bem alta. Ele é muito, muito justo e deixa todo seu esqueleto rebolando, exposto. O top é branco com detalhes marrons e azuis, tipo de seda esvoaçante. Cai num ombro revela o sutiã vinho escuro. Está com os tênis brancos imundos. Também estão surrados e deixam aparecer o formato desengonçado e ossudo de seus pés.

Fala pouco e sorri por educação. Tem uma pontada de ansiedade em tudo o que faz. É uma falsa "calminha". 

Não gosta de suco de caixinha porque é "industrializado de mais". Adora gatos e trabalha com jóias e bijuterias, meio que como freelancer (o que significa que ainda é sustentada pelos pais). Tem dois irmãos mais velhos, um deles é um cineasta promissor.

Só toma leite de soja e cerveja preta. Só fuma cigarros clássicos, com o filtro vermelho. Só usa ecstasy e jura só sair a noite uma vez na semana. Tem uma moto. É amarela, esportiva, barulhenta e extremamente bem cuidada.

Odeia bichos de pelúcia e tem alergia a praticamente todo tipo de inseto. Adora dormir ouvindo a chuva. Acampa sozinha desde os 11 anos. Tem duas tatuagens e um piercing - todos escondidos pela pouca roupa. Gosta de música eletrônica conceitual e alternativa, dessas importadas da Islândia e do Canadá.

Nunca votou e nunca comeu carne de porco. Adora cereja, daquelas nojentas que na verdade são chuchu, em conversa. Coleciona moedas antigas e tem 85 pares de sandália. Já morou na Áustria. Tem três ex-namorados e uma amiga colorida. Odeia apelidos populares. Sabe cantar o hino nacional ao contrário. Lê em média três livos por mês. 

Toma banho como hobby. Adora velhinhas e odeia meninos adolescentes. Carrega consigo fotos de toda a família e amigos. Corre quando está sem sono. Tem obsessão por higiene bucal. Apóia o topless. Foi criada pelo pai. Entende e apóia o 69. Quer viver mais cem anos. Quer um amor de duzentos.




Haikais de um tempo esquecido

Dos meus poucos dias dolorosos de adolescente, só saíram coisas boas, hoje consigo perceber.

Dá até para listar: minhas duas melhores amigas, minha coragem para enfrentar qualquer tristeza, minha capacidade de amar alguém incondicionalmente e - afinal de contas, é disso que estamos falando - minha belíssima coleção de haikais.

Me arrependo de não ter recolhido todos os créditos devidamente. De coração. Não tinha uma visão jornalística do mundo na época e não me importava muito com os autores. Era tudo sobre os versos. Três versos, somente os versos.

Abri esse arquivo hoje e deixei o melhor tipo de nostalgia me massagear por algumas horas. Compartilharei os que ainda me "tiram o ar".

Nenhum é meu, mas todos são.

Toco no teu sexo
espraio-me no teu corpo
um porto de abrigo

Incoerente
retardatários
Sempre na frente

Depois de horas
nenhum instante
como agora

Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
a gilete

Correndo risco
a linha do corpo
ganha seu rosto

Manhã
me ilumino
de imensidão

Os beijos da tarde
são feitos de mil fragrâncias
de velhas saudades

No ar circunvoando
vivo-escarlatas
indolentemente

Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda

Absorto no dia-a-dia
nem percebei que o aborto
veio em forma de poesia

O gato que dorme
tem sonhos de passarinho
na sombra do muro

Pardal sozinho
primeira aventura –
fora do ninho

Descansar na tua paz
(é tudo azul no infinito)
um tombo para o precipício

É devassa essa mulher
que seus sonhos expõe
quando abre a vidraça

Lírio do vale
oriental
brilhante!