quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Haikais de um tempo esquecido

Dos meus poucos dias dolorosos de adolescente, só saíram coisas boas, hoje consigo perceber.

Dá até para listar: minhas duas melhores amigas, minha coragem para enfrentar qualquer tristeza, minha capacidade de amar alguém incondicionalmente e - afinal de contas, é disso que estamos falando - minha belíssima coleção de haikais.

Me arrependo de não ter recolhido todos os créditos devidamente. De coração. Não tinha uma visão jornalística do mundo na época e não me importava muito com os autores. Era tudo sobre os versos. Três versos, somente os versos.

Abri esse arquivo hoje e deixei o melhor tipo de nostalgia me massagear por algumas horas. Compartilharei os que ainda me "tiram o ar".

Nenhum é meu, mas todos são.

Toco no teu sexo
espraio-me no teu corpo
um porto de abrigo

Incoerente
retardatários
Sempre na frente

Depois de horas
nenhum instante
como agora

Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
a gilete

Correndo risco
a linha do corpo
ganha seu rosto

Manhã
me ilumino
de imensidão

Os beijos da tarde
são feitos de mil fragrâncias
de velhas saudades

No ar circunvoando
vivo-escarlatas
indolentemente

Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda

Absorto no dia-a-dia
nem percebei que o aborto
veio em forma de poesia

O gato que dorme
tem sonhos de passarinho
na sombra do muro

Pardal sozinho
primeira aventura –
fora do ninho

Descansar na tua paz
(é tudo azul no infinito)
um tombo para o precipício

É devassa essa mulher
que seus sonhos expõe
quando abre a vidraça

Lírio do vale
oriental
brilhante!

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