quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Stranger

O cabelo é enorme. E cheiroso.

De de perto, o aroma é floral e doce, mas quando se agita, de hortelã e folhas secas. As pontas são bem claras e onduladas e a raiz é, pode-se dizer, castanha acinzentada. É um cabelo cheio, sabe? Ridiculamente longo e volumoso, mas de um jeito muito especial. Quase tímido.

Todos os ossos são muito bem pronunciados. É até magra demais, segundo as convenções. Os quadris estão mais para duros do que arrendondados, mas tem um movimento gracioso, é preciso admitir. Como se o tempo todo ela estivesse na ponta dos pés, feito uma bailarina. A silhueta é bonita, no geral, principalmente porque é uma mulher alta. A a postura é tão ávida que, por vezes, ela até parece assustada, pronta pra sair correndo.

O nariz é minúsculo e sardento, o que é estranho, porque o restante da pele é padronizada e bem... bronzeada. As extremidades pontudas dos ombros estão, inclusive, descascadas do sol. Parece que ela passou a vida inteira no litoral, embora venha do campo. Tem umas mãos finas de pianista, cheias de anéis minúsculos e descascados. As unhas não são enormes, nem tem esmalte algum, mas estão bem polidas.

A boca é normal. Mas não é muito justo descrever assim. No rosto dela, fica perfeita, como que desenhada ali mesmo. Só que é difícil explicar esse efeito, pois não é muito grande, ou larga, ou rígida, ou grossa. É normal e perfeita pra ela. 

Os olhos são escuros e estão sempre baixos, sonolentos, sorrindo de desconfiança. Ou de interesse, pode ser. São bem misteriosos e por isso tão legais. Os cílios enormes deixam ela com aquela expressão de rapina. Estão recheados de máscara escura, quase exageradamente,embora tenham dado um contraste interessante com os cabelos claros.

Usa um shorts jeans daqueles com a cintura bem alta. Ele é muito, muito justo e deixa todo seu esqueleto rebolando, exposto. O top é branco com detalhes marrons e azuis, tipo de seda esvoaçante. Cai num ombro revela o sutiã vinho escuro. Está com os tênis brancos imundos. Também estão surrados e deixam aparecer o formato desengonçado e ossudo de seus pés.

Fala pouco e sorri por educação. Tem uma pontada de ansiedade em tudo o que faz. É uma falsa "calminha". 

Não gosta de suco de caixinha porque é "industrializado de mais". Adora gatos e trabalha com jóias e bijuterias, meio que como freelancer (o que significa que ainda é sustentada pelos pais). Tem dois irmãos mais velhos, um deles é um cineasta promissor.

Só toma leite de soja e cerveja preta. Só fuma cigarros clássicos, com o filtro vermelho. Só usa ecstasy e jura só sair a noite uma vez na semana. Tem uma moto. É amarela, esportiva, barulhenta e extremamente bem cuidada.

Odeia bichos de pelúcia e tem alergia a praticamente todo tipo de inseto. Adora dormir ouvindo a chuva. Acampa sozinha desde os 11 anos. Tem duas tatuagens e um piercing - todos escondidos pela pouca roupa. Gosta de música eletrônica conceitual e alternativa, dessas importadas da Islândia e do Canadá.

Nunca votou e nunca comeu carne de porco. Adora cereja, daquelas nojentas que na verdade são chuchu, em conversa. Coleciona moedas antigas e tem 85 pares de sandália. Já morou na Áustria. Tem três ex-namorados e uma amiga colorida. Odeia apelidos populares. Sabe cantar o hino nacional ao contrário. Lê em média três livos por mês. 

Toma banho como hobby. Adora velhinhas e odeia meninos adolescentes. Carrega consigo fotos de toda a família e amigos. Corre quando está sem sono. Tem obsessão por higiene bucal. Apóia o topless. Foi criada pelo pai. Entende e apóia o 69. Quer viver mais cem anos. Quer um amor de duzentos.




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